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Mistério envolve partituras do Século XIX encontradas em Cachoeira do Campo-MG

Patrimônio 26/02/2021/ 16:40:28
Mistério envolve partituras do Século XIX encontradas em Cachoeira do Campo-MG Foto: Músicos exibem a orquestração que se assemelha às utilizadas por importantes compositores mineiros do período colonial

Publicado por João Paulo Silva / Jornal Voz Ativa

Uma relíquia de valor inestimável foi encontrada em Cachoeira do Campo, distrito de Ouro Preto. Em pesquisa realizada no acervo de partituras da Banda Euterpe Cachoeirense, os músicos Tiago Viana, mestre em música pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Waldeci Ferreira, licenciado em música pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), descobriram algo intrigante: partituras de uma abertura escrita para orquestra datadas de 1816. Os músicos disseram que a obra “de significativa qualidade composicional” estava em meio ao extenso acervo de partituras da instituição.

Os músicos informaram também que a orquestração é semelhante às que eram utilizada por importantes compositores mineiros do período colonial “Dispondo de violino, viola, contrabaixo, flauta, oboé, fagote e trompa. Acredita-se que exista também a partitura para violoncelo, mas ainda não foi encontrada”, lamentam.

Tiago Viana acredita que a partitura, talvez seja a mais antiga já encontrada na região. O curioso, de acordo com o músico, é que a Banda Euterpe Cachoeirense foi fundada em 1856 e a peça encontrada data de 1816. “Ou seja, a música foi escrita 40 anos antes da fundação da corporação”.

O fato curioso leva a várias indagações e muitos mistérios envolvem o manuscrito que não figura no estilo sacro, num período de intensa produção religiosa na região.

Tentando responder as indagações, um longo caminho deverá percorrido a partir de agora. “O trabalho de pesquisa envolverá muita perseverança e paciência, já que o manuscrito não possui informações claras sobre quem teria sido o compositor. Apenas um monograma, espécie de assinatura com sobreposição de letras, está escrito no canto superior esquerdo de cada uma das partituras”.

Embora com grande valor estético, partitura não apresenta informações claras sobre os eu compositor. Crédito - Reprodução.

Tiago e Waldeci revelaram que essa não é a primeira vez que trabalhos de pesquisa são feitos nos arquivos da Banda Euterpe. Por meio de uma parceria firmada nos anos 2000 entre a corporação e o Museu da Inconfidência, foi feita a catalogação e o lançamento do livro Acervo de Documentos Musicais Vol. 1, referente aos manuscritos de música sacra pertencentes à Euterpe.

“Este trabalho realizado foi, e ainda é, de grande relevância, possibilitando que músicos e pesquisadores conheçam um pouco sobre o arquivo de partituras da corporação. Futuramente, existe a possibilidade da disponibilização do arquivo de partituras da Banda Euterpe para pesquisadores externos à instituição”.

Diferente das cifras e tablaturas, a partitura é a uma escrita musical complexa que exige conhecimento por parte dos músicos. Crédito - Reprodução.

Tiago destaca a importância que Ouro Preto sempre teve para o cenário cultural do País nos séculos XVIII e XIX, e continua tendo. Para além da arquitetura e outras expressões culturais, dentro desse contexto, a música sempre ocupou um espaço relevante. Ele cita que muitos músicos ouro-pretanos ganharam projeção principalmente após intensa e variada atividade profissional de Francisco Curt Lange (Eilenburg, 1903 – Montevideo, 1997).

O musicólogo teuto-uruguaio acumulou documentos que registram aspectos do cotidiano da vida musical e cultural latino-americana ao longo de praticamente todo o século vinte, atestando sua importância enquanto fontes de pesquisa. João de Deus de Castro Lobo, Marcos Coelho Neto e Francisco Gomes da Rocha, são apenas três exemplos desses músicos ouro-pretanos que tiveram suas composições gravadas e executadas por grandes orquestras brasileiras.

Capa do disco gravado pela Orquestra Sinfônica Brasileira nos anos 50 que divulgou a música erudita mineira para o Brasil e o mundo. Crédito - Reprodução.

Com a intensa produção do período, Tiago Viana acredita que haja muitas obras a serem resgatas, inclusive no acervo contido no Museu de Música de Mariana. Além disso, de acordo com o mestre, “as bandas ouro-pretanas, provavelmente, ainda escondem um pouco dessas raridades”.

Futuramente, a intenção é editar a partitura encontrada em Cachoeira do Campo e divulgá-la. “Para que ela seja tocada pelas orquestras e não fique guardada. É preciso levar ao maior número de pessoas essa história que não é apenas do distrito ou de Ouro Preto, ou do Brasil, mas de todo o mundo”, finaliza Tiago.

Euterpe Cachoeirense

A Banda Euterpe Cachoeirense (BEC) é uma sociedade civil de Direito Privado, sem nenhuma finalidade econômica, política ou religiosa e tem por objetivo o ensino e divulgação da arte musical. Fundada em 25 de outubro de 1856 pelo capitão Rodrigo José de Figueiredo Murta. Esta banda foi apelidada, ao longo de sua história, de “Banda de Cima” devido à sua sede se situar na parte mais elevada da antiga Cachoeira do Campo.

Atualmente a banda é composta por cerca de 40 músicos, entre músicos fixos e convidados. Alguns destes músicos quais já são profissionais. Tem como uniforme a túnica cinza chumbo, camisa branca, gravata e calça azul-marinho e o tradicional uso do quepe, referência às antigas tropas de exército.

Banda Euterpe Cachoeirense posa para foto. Local desconhecido. 5 de maio de 1943. Regência de Juquinha Murta (ao centro com a criança) e direção de Antônio de Brito (à sua direita). Crédito - Arquivo BEC.

Seu repertório inclui os tradicionais dobrados, valsas, marchas festivas e militares, maxixes, choros, peças clássicas, música popular e internacional. É considerada pela Secretaria de Cultura do Estado de Minas Gerais a banda mais antiga deste estado em atividade ininterrupta. Inclusive, nos seus arquivos, possui registradas todas as diretorias desde 1856 até os tempos atuais.

A Banda Euterpe é inscrita no Conselho Nacional de Serviço Social do Ministério da Educação e Cultura (MEC), sob o nº 60.560/64. Na Secretaria do Estado e da Cultura de Minas Gerais, está registrada sob o nº 194. O acervo da banda é riquíssimo, dispõe de variado repertório. Muitas obras merecem cuidados e atenção devido à sua importância histórica.

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