História

A eira, a beira e a tribeira

História 21/12/2019/ 18:46:22
A eira, a beira e a tribeira Fotos: César Reis em Tiradentes - MG

No início do século XVII, com a descoberta de ouro e diamantes em Minas Gerais, o território mineiro foi palco da maior imigração já vista até hoje. Portugueses, bandeirantes paulistas e de todo o território nacional vinham para Minas Gerais, explorar as ricas minas de ouro e diamantes mineiras.

No início as diferenças sociais eram pouco notadas. Não existia no início da colonização do Brasil,  construtores, arquitetos e muito menos material o suficiente construir residências. As casas inicialmente construídas eram bem rústicas, tanto de rico, quanto de pobre. A única diferença era a eira e beira. Quem tinha um pouco mais de dinheiro, fazia sua casa com eira e beira. Já o pobre, sem eira e sem beira.
          Com o crescimento das cidades e chegada de mais e mais portugueses e bandeirantes, novas construções foram sendo erguidas nas vilas e cidades mineiras. Com o avanço da exploração mineral, o enriquecimento começou a crescer em passos largos fazendo com que as diferenças entre pobres e ricos aumentasse assustadoramente. Além da eira, da beira, as casas dos ricos passaram a ter tribeiras.
          Esses detalhes arquitetônicos foram introduzidos no Brasil pelos portugueses. Vou explicar o significado dessas palavras para que possam entender melhor.
          Em Portugal existiam e existem até hoje, várias aldeias. A palavra “aldeia” cuja origem é árabe (الضيعة ad-Dai'hâ), é uma pequena povoação rural com casario, igreja e propriedades rurais no seu entorno, mas sem autonomia política, como os distritos. Aqui no Brasil, o que os portugueses chamam de aldeia, chamamos de povoados, vilas ou vilarejos. 

          Nas aldeias portuguesas existiam algumas propriedades com “eira”, um espaço próximo às casas onde cereais era esparramado no chão, limpados e secados. Em outras palavras, é o mesmo que um terreiro, onde costumeiramente são secados grãos de café, arroz, feijão, etc. Ter uma eira, com casarão sede com beira e tribeira, era para ricos proprietários de terras, sinal de poder social e riqueza. (na foto do Sérgio Mourão, em café secando no terreiro em Água Boa MG,  exemplo de uma "eira")
          Quem tinha eira, tinha recursos financeiros para fazer casarões enormes. Para os ricos da época, além de ter uma eira, no telhado tinha que ter uma beira, que é uma aba em torno de todo o telhado com o objetivo de escorrer melhor as águas das chuvas, protegendo as paredes dos casarões de infiltrações. Os mais ricos, reforçavam a beira com outra camada, chamada de tribeira.
          Quem não tinha recursos, não tinha como ter uma eira em seu quintal e muito menos construir uma casa com beira. Não tinha eira, nem beira, dai a famosa expressão popular.
          As diferenças na arquitetura das casas era o divisor social da época.
          Em Portugal e no Brasil Colônia, essas diferenças arquitetônicas eram latentes e serviam como base para a gritante e crescente diferença social entre ricos e pobres.
          Quem não tinha eira e nem beira, era considerado miserável. Ter uma pequena eira era pobre. Quem tinha eira e beira era mais ou menos rico. Já quem possuía uma eira, com casarão com beira e tribeira, era rico. 

          Para essa riqueza ficar à mostra, e evidenciar que na propriedade tinha uma eira, o telhado dos casarões, além da beira e tribeira, teve o acréscimo de mais um nível, denominado eira. Ter os três níveis no telhado dos casarões era o símbolo da riqueza dos nobres portugueses, tanto em Portugal, como aqui no Brasil, nos tempos do Brasil Colônia. (foto ao lado de César Reis em Tiradentes, evidenciando os 3 níveis nos telhados)
          Com o aumento da produção de ouro e surgimento do cultivo do café, o nível de riqueza e poder foi aumentando, bem como a forma de mostrar esse aumento de poder e riqueza. Além da eira, beira e tribeira, portas e janelas passaram a ser símbolos de riqueza e poder maior. Quanto mais portas e principalmente, quanto mais janelas tinha um casarão, mais rico e poderoso era seu proprietário. 

          Com essa demonstração de riqueza, casarões foram sendo construídos pelo Brasil afora, principalmente em Minas Gerais, com boa parte desses casarões concentrados nas cidades históricas e na Zona da Mata, principal região cafeeira de Minas, naquela época. 

          Eram construções suntuosas, imponentes e luxuosas, com nítida demonstração de riqueza e poder para a época, com dezenas de janelas e portas. Alguns tinham centenas de janelas como o casarão da Fazenda Santa Clara em Santa Rita de Jacutinga MG (na foto acima de Márcio Lucinda - Sauá Turismo), que além da eira, beira e tribeira, possui 365 janelas, 54 quartos, 12 salões e 3 cozinhas.

           Quando visitar as cidades históricas mineiras como São João Del Rei, Tiradentes, Mariana, Ouro Preto, Diamantina, Serro, etc., bem como as antigas fazendas de café, prestem atenção nesses detalhes da eira, beira e tribeira. Também nos casarões com suas portas enormes e janelas e mais janelas. Pode ser apenas detalhes arquitetônicos hoje, mas no passado, nos mostra como eram as diferenças entre pobres e ricos, evidenciando as diferenças sociais, presentes até hoje entre nós.

Fonte: Conheça Minas

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