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Canecas de lata e a inventividade brasileira

Você Sabia? 17/08/2019/ 16:16:46
Canecas de lata e a inventividade brasileira Foto: Luci Silva

Hoje uma caneca dessas é arte e retrata a consciência para reciclagem. Antigamente não. As dificuldades eram muitas e famílias tinham essas canecas e copos maiores feitos com lata de óleo por necessidade mesmo. Existiam às pencas nas casas. Todos tinham e ninguém reclamava.

Por Pepe Chaves editor do diário digital

Vivemos um tempo apressado, onde até mesmo a faculdade de pensar já pode ser “terceirizada” por qualquer cidadão, assim como o ato de fazer somas, cálculos diversos e consultar a previsão do tempo. Nesta época em que máquinas pensam para nós, e por nós, a inventividade humana vai se perdendo sob o pretexto de que é mais confortável descartar materiais reaproveitáveis do que reciclá-los. 

Eu me lembro quando visitava a fazenda da minha tia avó Maricota e lá tomava água, leite e café em diversas canecas feitas de latas usadas como embalagens de diferentes produtos. Latas de azeite, salsicha, massa de tomate, leite condensado e tantas outras, ganhavam asas (ou alças) e passavam a ser usadas como canecas, o que estendia e muito à vida útil do material. 

As canecas feitas de latas eram bastante simples. Primeiramente, para não cortar os lábios, um martelo acertava as rebarbas pontiagudas causadas pelo abridor de latas. Depois a alça era rebitada na lata, em muitas das vezes, também feita de outra lata, devidamente cortada em forma de uma tira e dobrada de modo a facilitar o manuseamento do usuário da caneca. Mas, rapidamente, com o sucesso das canecas de lata, surgiu nas grandes vendas (ou armazéns) de tantas comunidades, a venda de alça separada (em vários tamanhos), para o próprio freguês pregá-la na sua lata. 

Em meados do século XX, na zona rural de Itaúna, estas canecas eram consideradas um verdadeiro luxo, numa época em que a indústria manufatureira brasileira ainda não alcançava alguns dos alienados rincões de nosso imenso país. E ainda me lembro bastante delas na década de 1970, quando vivi minha infância, até desaparecerem por completo poucos anos mais tarde. 

Além da fabricação de canecas, houve um tempo em que latas em geral, de todos os tamanhos e tipos (e desde que não guardassem substâncias químicas) eram também reaproveitadas das mais variadas maneiras. Desde o leiteiro de tantas comunidades, que passava na todo dia na sua carroça e media o litro do leite que vendia em uma lata dessas, até as grandes latas de óleo de soja ou de margarina, fartamente usadas para transportar cerca de 10 litros de água e outros líquidos, além de utensílios práticos em regiões ermas – o que ainda ocorre em determinadas partes do Brasil atual. 

Brinquedos diversos também eram feitos com latas descartadas, tais como caminhõzinhos e aviõezinhos com hélices que rodavam ao vento. Desdobrada em placa, a lata ganhava novos formatos, geralmente, de brinquedos sedutores às crianças do passado. E para a infância de muitos meninos, não fossem os brinquedos de lata, os natais, aniversários e brincadeiras teriam sido bem mais tristes. Antigamente, a vida era mais racional e com isso, mais emocional. 

Se hoje temos a reciclagem do lixo doméstico em cidades como Itaúna-MG (e várias outras do Brasil), é bom lembrar que, no passado, essa atividade não existia e muitos materiais eram jogados em estado bruto na natureza. No entanto, uma imensa gama de materiais - hoje descartada indiscriminadamente – era reaproveitada para outros fins, sempre de grande utilidade aos nossos antepassados. Portanto, antes havia reaproveitamento e não reciclagem. Entretanto, ao passo em que crescem nossas montanhas de lixo urbano, chegamos ao ponto em que até mesmo máquinas complexas, como computadores e celulares são descartadas indiscriminadamente. Isso é feito após um breve uso, uma vez que se tornou mais viável comprar um novo aparelho do que pagar para consertar. 

Atualmente, a triagem do lixo faz retornar à matriz grande parte de material que seria inteiramente perdido na natureza, fazendo com que a sua vida útil e seu reaproveitamento se tornem bastante elevados. Entretanto, no meio de todo esse material reciclável diariamente dispensado, segue também muito da inventividade brasileira, que parece não estar mais inspirada nas formas lúdicas e na criatividade de um passado recente. 

Nesse tempo de automação e da velocidade em todos os aspectos, a velha caneca da lata reaproveitada tornou-se somente um ícone daquilo que praticamente deixou de existir sob os jugos inevitáveis do progresso.

As informações são do site viafanzine.jor.br

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