Cachoeira do Campo

Praça Da Matriz De Cachoeira do Campo: História a Céu Aberto

Cachoeira do Campo 05/12/2018/ 05:33:05
Praça Da Matriz De Cachoeira do Campo: História a Céu Aberto


COTIDIANO CULTURA

Praça da Matriz de Cachoeira do Campo: História a céu aberto

Victória Oliveira

Quem passa pela praça Felipe do Santos, pode não imaginar o valor histórico ali presente com a simplicidade do local . Uma das mais antigas Igrejas Barrocas do Brasil, um casarão do século XVIII, a sede da 2ª banda civil mais antiga do Estado de Minas Gerais em trabalhos ininterruptos, um armazém com cerca de 200 anos de história. Tudo isso reunido em uma praça que foi palco de uma guerra e da condenação do líder do movimento que é considerado o embrião da Inconfidência Mineira.

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Praça da Matriz de Cachoeira do Campo

Cachoeira do Campo, o maior distrito de Ouro Preto (MG), começou a ser fundada por volta de 1700, segundo registros. Com o desenvolvimento, Cachoeira perdeu o aspecto de vila colonial, mas a sua principal praça ainda guarda memórias do passado. Seu nome é justificado pelo fato de ali ter sido o local de enforcamento de Felipe dos Santos, que liderou uma revolta em Vila Rica em 1720, contra as cobranças da coroa portuguesa.

Antes mesmo de ganhar nome, a praça da Matriz, como também é conhecida, já tinha sido palco da Guerra dos Emboabas, conflito entre os bandeirantes, paulistas desbravadores que descobriram o ouro na região, contra os emboabas, grupo de portugueses e imigrantes das demais partes do Brasil, pelo direito de exploração das minas de ouro. Foi ali que, em 1708, os emboabas atacaram os paulistas e saíram vitoriosos, e como resultado disso, Manuel Nunes Viana, se autodeclarou Governador de Minas, como explica a doutoranda e professora do ensino básico, Pollyanna Precioso, que pesquisou sobre o conflito e deu aula no distrito.

“A região precisa desse destaque de importância histórica, já que era por ali que passavam pessoas, ideias e mercadorias que se destinavam às minas de ouro. Toda efervescência que o ouro causou à região, esteve presente o tempo todo em Cachoeira também”, explica Pollyanna sobre o local.

Quando se chega à Matriz, logo se vê um grande casarão e uma Igreja aparentemente simples, que não chama atenção pelo seu tamanho, e nem por sua beleza, mas que é rica em história e em ouro. A Igreja Matriz de Nossa Senhora de Nazaré, de 1724 é um patrimônio tombado pelo Iphan.

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Altar da Igreja de Nossa Senhora de Nazaré. Na foto, quadros pintados por Antônio Rodrigues Belo, de 1755
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Pintura de teto da capela mor, de Antônio Rodrigues Belo

A fachada passou por reformas da época, e por isso apresenta esse estilo simples. Mas por dentro tem características que a classificam como pertencente ao movimento barroco, como a sua extravagância, linhas curvas e pinturas na madeira, semelhantes à aparência de mármore. Além disso, há quadros de pinturas em perspectivas de Antônio Rodrigues Belo, que datam do ano de 1755, de quem também é a pintura de teto,que não foi a primeira da Igreja, mas que trata-se de um dos primeiros exemplos de pintura de tetos em templos, no Ciclo do Ouro de Minas Gerais.

Dentro da igreja há também um pequeno acervo com algumas imagens, que em sua maioria já foram usadas em seu interior, como a de Nossa Senhora de Nazaré, original de Braga (Portugal), que ficou por muito tempo no altar até ser substituída. De Portugal também é o sino,tocado até hoje, e o relógio, que continua marcando as horas para os moradores do distrito, graças à doações feitas pela comunidade, explica Nilson Ferreira, que realiza serviços gerais na igreja. “A comunidade é quem mais ajuda a igreja e quem conseguiu as melhorias aqui”, conta Nilsinho, como é chamado pela população local.

Ele, que trabalha por lá há anos, afirma também que a igreja raramente recebe visitante, e que algumas vezes, são turmas de escolas levadas por algum professor do distrito. José Carlos, membro da Irmandade do Santíssimo Sacramento e também responsável por guiar as visitas, contou que sente falta de uma divulgação mais forte, que trouxesse mais turistas.

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Casa vizinha à igreja que já teria funcionado como casa paroquial

Atrás da Igreja, existe um cemitério onde só membros do Santíssimo são enterrados. De um do lados, uma casa que já funcionou como casa paroquial, e que era ligada à igreja por um túnel subterrâneo, mas que hoje, pertence a um senhor, de acordo com Nilsinho e Zé Carlos. A reportagem não conseguiu contato com o suposto dono. Do outro, além de um coreto centenário, vê-se um Sobrado do século XVIII, tombado como patrimônio histórico, escorado em peças de aço.

O chamado Casarão dos Pedrosa pertence à prefeitura desde 2010, mas até hoje nenhuma reforma aconteceu e nenhuma utilidade foi dada ao local, além de ser escorado por risco de desmoronamento e  ter seu telhado retirado. Ivanilde Suely Pedrosa (63) conta que foi ela quem negociou a venda do Casarão, e que o ofereceu à prefeitura. Ela conta que o Sobrado pertencia à sua avó, e antes que ela morresse, sua tia comprou para que “continuasse em família”, mas os herdeiros, seus primos, já muito idosos e morando fora da cidade, pediram para que ela negociasse alguma venda. Ela afirma ter pensado na prefeitura, porque gostaria que aquele lugar, que tem até hoje memória afetiva, tivesse utilidade correta para a cidade.

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Casarão dos Pedrosa, aproximadamente em 1940. Imagem da Internet, disponível aqui

Ivanilde diz ter muitas lembranças das brincadeiras no quintal do casarão e das histórias de sua mãe: “Minha vó (Maria Benvinda) foi criada lá, minha mãe nasceu lá. Eu não morei, mas brinquei muito naqueles quintais. Lá é uma casa muito grande, a parte de cima tem uma sala de dança onde minha mãe contava que meu avô fazia bailes, e como tinha 15 filhos, eram grandes bailes, minha mãe ainda era meninota e não participava, porque era uma das caçulas”. Hoje, Ivanilde faz questão de guardar fotografias de sua avó, de sua ama de leite, seus bisavós, da grande família, anotações de seu avô que fez dali uma pequena mercearia, e imagina como era vida de seus antepassados.

O casarão, que também  já foi Farmácia do Senhor Arnaldo e Restaurante da Dona Eva, foi o único que sobrou com poucas modificações, dentre os vários que já existiram em Cachoeira do Campo. Ivanilde teme que o casarão venha abaixo junto com a história de sua família, “pelo que eu tô vendo vai cair”, desabafa. Existe um projeto da prefeitura e uma reunião já foi feita para a contratação de empresas para a reforma do casarão, em abril de 2018, mas não há datas previstas, segundo informações disponíveis à população no site da prefeitura. A reportagem não conseguiu contato com o prefeito até o momento.

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Casarão do Pedrosa nos dias atuais, escorado em peças de ferro

Caminhando em direção oposta à igreja, logo no meio do caminho se encontra um antigo chafariz que já não passa água há muitas décadas e uma cruz , que marca o centro da praça. Poucos passos à frente, está a sede da Banda Euterpe Cachoeirense, ou como é chamada no distrito, “Banda de cima”, a segunda mais antiga em atividade ininterrupta do estado. 

A banda começou quando o Capitão Rodrigo Murta conseguiu estruturar uma corporação musical, dando a ela o nome de Companhia Euterpe Cachoeirense, sendo que “euterpe”  significa deusa da música e da poesia lírica. Ela surgiu diante de interesses políticos e representava uma certa propaganda ideológica, aliada ao Partido Conservador, quando o Brasil Imperial se dividia entre Partido Conservador e Partido Liberal.

Acredita-se que os primeiros instrumentos tenham sido conseguidos junto às bandas militares de Ouro Preto, e vieram de músicos que serviram na Guerra do Paraguai, mas são apenas relatos orais. Sabe-se ainda que, a banda atuou também na educação dos cachoeirenses, já que  Francisco Carlos de Assis Ferreira (Mestre Chico), teria sido professor de ensino fundamental e, posteriormente, cedeu sua sede para o funcionamento de um curso primário.

O popular nome “Banda de Cima” só existe porque há também a “Banda de Baixo”. Os grupos foram rivais durante anos, depois que parte da Banda Euterpe se desfez e foi criada a nova banda. Até hoje não se tem certeza do porquê da separação da banda. Muitos falam em posições e ideologia políticas, alguns falam de reclamações de preferência dentro da banda, mas não há nada registrado. Porém, de acordo com Waldeci Ferreira, maestro desde 2014 e professor na banda, essa rivalidade ficou no passado, e as bandas, hoje, andam na mesma direção.

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Waldeci atuando como maestro, em ensaio semanal da banda

Waldeci, que estreou na banda como aluno em 1991, conta que atualmente na sede acontecem os ensaios da banda, todo domingo às 10h, e eles se apresentam em encontros, tocam em cerimônias religiosas, civis e algumas particulares. São 30 membros, entre ativos e inativos, de 12 até 87 anos, mas os músicos podem começar aos sete anos e não têm idade limite para permanecer. Além disso, em parceria com o CRAS local, a banda oferece aulas de música gratuitas para quem se interessar em aprender a tocar os instrumentos.

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Ensaio da banda em sua atual sede

Hoje, a banda sobrevive de doações, e da cobrança de alguns toques. A maioria  dos instrumentos é da banda, de músicos que deixam o instrumento quando saem, e vão passando um para o  outro. “ A gente também costuma ganhar de projetos, doações. E a banda também compra com alguns toques que a gente recebe; Apesar de serem poucos, quando a gente recebe reverte em instrumentos, manutenção, compra de estantes, cadeiras. Aqui não tem a mensalidade do músico, a não ser que ele queira se associar e dar essa contribuição financeira. A banda, que já antigamente era famosa pela grandeza, hoje respira por aparelhos e sofre com a ausência de apoio político, em todos os âmbitos”, explica Waldeci.

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Coreto pertencente á banda, em 2017. Imagem cedida de arquivo (Foto: Robson Peixoto)

Além disso, a Banda Euterpe Cachoeirense ainda conta com outro espaço histórico na Praça da Matriz. O coreto que fica logo ao lado da igreja é o único coreto particular do Brasil. Segundo arquivos da banda, a construção se deu em torno de 1923 por meio de muitas doações, tanto de dinheiro ( na época réis), quanto de serviço dos voluntários.

A intenção era que ali os músicos se apresentassem, e assim foi por muito tempo, mas com o passar dos anos e crescimento da banda, as apresentações pararam de ocorrer. Durante anos, na parte debaixo do coreto funcionou o conhecido bar do Sr. Antonio Tavares. Hoje, a parte de cima é reformada e o espaço de baixo, é alugado para um outro barzinho.

Ao chegar quase no final da rua, imagina-se que a história da praça acabou por ali. Mas, quem passa por aquela rua se depara com um pequeno armazém, sem muito movimento e com, aparentemente, poucas mercadorias. É a “venda do Xavier” para os cachoeirenses que já vivem no distrito há muito tempo, e para os registros é a Casa Viúva Xavier Ltda., posto de revenda há cerca de 200 anos.

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Frente do Armazém dos Xavier, na praça de Cachoeira do Campo

Ali dentro, já aos 71 anos, trabalha Wilson Xavier, que conta que o armazém foi passado de geração em geração, e explica as origens de sua família: “ É que a minha família( Xavier), tem ligação com Tiradentes. O tataravô do meu pai era casado com a irmã do Tiradentes(Joaquim José da Silva Xavier), daí veio o sobrenome.”

Antes de funcionar como armazén, durante a Guerra dos Emboabas, segundo Wilson, o local servir como “paiol de guerra”, que na linguagem informal significa  o lugar em que se guardam pólvora, munição e instrumentos. Nos fundos também existe uma construção antiga, que Wilson explica ser o local onde dormiam os bandeirantes em suas expedições.

Wilson também conta, orgulhoso, que o armazém  já recebeu inúmeras visitas. Ele explica Dom Pedro II, quando veio em visita à Minas, mais precisamente na volta de Ouro Preto, passou a noite ali, graças à rua ter sido parte da Estrada Real. Senhor Wilson guarda até hoje em sua casa, que também é ali, junto com o armazém, o jogo de xícaras usado na manhã seguinte.

Mais recentemente, o armazém chamou atenção de canais de TV pela sua história, foi exibido em programas mineiros e por isso atraiu a atenção de algumas figuras como políticos e alguns turistas, mas o movimento ainda é bem pequeno se levado em conta toda a história do local. Dentro do armazém, senhor Wilson guarda muitos objetos antigos, cheio de histórias, e também registros escritos das vendas que aconteciam ali.

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Wilson mostra ons antigos registros de compra e venda do armazém. Os papéis são marcações do que ele considera  inusitado

São grandes cadernos preenchidos à caneta de tinta, com contas em nome, por exemplo, do Consulado da Itália, e da Côrte de Visconde de Inhaúma. Há também anotações de estoques, que registram que houve venda das mercadorias mais variadas: tecidos e calçados, bois e cavalos, caixões, armas e cartuchos, dinamites, aviamentos, alimentos, bebidas, entre outras coisas, vendia de tudo. E o pagamento, como ainda existem anotações, eram feitos por trocas formais, de serviços ou de bens.

No armazém também é possível encontrar cartas de compradores e devedores, documentos de compra de armas e de empréstimos de dinheiro, livros que ali estavam, um deles com desenhos à carvão de várias cidades vizinhas, mapa antigo do cemitério da cidade, carteira de motorista do pai de 1948, entre muitos outros registros específicos.

Além de papéis, há também muitos objetos guardados desde a época de seu avô, e outras da sua própria infância, como um ventilador de metal da década de 30, vaso sanitários antigo, telefone da década de 30/40, rótulos de cachaça produzidas ali, engarrafadores, máquinas de escrever de até 90 anos, máquina de calcular, máquina de moer café, alpargatas, botões e linhas antigos, entre diversos outros itens que parecem não ter fim.

Wilson lê e relê os livros, marca as partes mais curiosas, mostra cada detalhe que lhe remete à memória de sua família e de sua infância. Ele conta que lembra muito de sua infância naquela praça. Lembra-se de casarões e  de casas de pedra e sente saudades. Sua vontade é que todos conheçam aquelas histórias.

“É, eu queria investir em artesanato, porque alguns turistas passam por aqui. Mas meu sonho é transformar isso aqui num museu”, confessa.

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Wilson mostra antigo medidor de tecido. Na bancada, alguns outros objetos do armaz
Fonte: lamparinaufop

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